Entrevista com o reitor Rubens Cardoso

A Universidade do Estado do Pará (Uepa) festeja 25 anos neste mês de maio. Ao longo deste ano, haverá programações comemorativas em alusão ao Jubileu de Prata da instituição. Distribuída em 20 campi, ela promove ações afirmativas para a diminuição das desigualdades sociais no Estado. Conversamos com o reitor Rubens Cardoso sobre a história e a trajetória de crescimento da entidade que contribui diariamente com o desenvolvimento do Pará. Confira a entrevista:

Como ocorreu a criação da Uepa?

Decorreu da necessidade de atendimento à demanda do próprio ambiente acadêmico e da sociedade de um modo geral. De um lado, o contínuo da trajetória de mudança no “estado da arte” e, do outro, o crescente contingente de estudantes que se reprimia pela limitação de vagas e concentração da Uepa na capital. Podemos ter como marca o mês de maio do ano de 1993, quando se instituiu a lei que criou a Universidade, a partir da Escola Superior de Enfermagem, que existia desde 1944; da Faculdade de Medicina; da Escola Superior de Educação Física, ambas de 1973; e da Faculdade de Educação, criada em 1983 e que já nasceu com unidades em Belém e no município de Conceição do Araguaia. As faculdades não possuem obrigatoriedade de fazer pesquisa e extensão, ou ter um quadro de mínimo de professores com qualificação de doutorado, por exemplo. A Uepa veio também com um grande desafio de interiorizar a educação superior no Pará. Ela precisava, então, se expandir para formar e capacitar recursos humanos para a complexa tarefa da transformação estrutural da sociedade e do desenvolvimento do estado.

Quais demandas a Uepa veio atender?

A Universidade estava sendo recém-criada, as faculdades funcionavam em Belém. Então não era fácil ter um projeto pedagógico diferenciado para levar para o interior, atender as peculiaridades locais, ter professor qualificado para fazer o que a Universidade se propunha, sobretudo além do ensino, a pesquisa e a extensão. Precisávamos formar capital humano e investir em municípios polarizadores ou naqueles que apresentavam contrapartidas para a instalação e manutenção do novo campus. Havia tratativas, interesses diversos dos representantes legais da população dos municípios junto ao Governo do Estado e se estabeleciam algumas prioridades. O ano de 1995 é um marco inicial dessa instalação, quando começamos a sair da capital e hoje estamos em 16 municípios num total de 20 campi, sem contar com os 32 polos do sistema Universidade Aberta do Brasil (UAB).

E hoje, qual é a importância da Uepa para esses municípios?

Abrir um curso superior em uma localidade longínqua, na época, não atraia a iniciativa privada. Então, à medida que interiorizamos, fixando-nos em um município-polo, facilitamos que o jovem dos arredores se desloque para lá, seja porque tem um parente, ou porque o custo de vida é mais barato, diferente de uma capital. Isso também permite que o aluno ou o profissional enxergue de outra forma a realidade local, estudando-a e problematizando-a para criar soluções e inovação para a superação de obstáculos que dificultam o desenvolvimento. A Universidade precisa estar cada vez mais próxima das necessidades da sociedade e fazer uma combinação agridoce entre a educação, a cultura, a arte, o erudito com o “aqui e o agora”, ou seja, com o que está acontecendo em seu entorno, com os problemas emergentes.

Quais conquistas o senhor pode destacar ao longo desses 25 anos?

Acreditamos que a maior conquista é estar em 16 municípios paraenses. Não é fácil, por exemplo, levar cursos da área de saúde para cinco cidades diferentes, sendo três delas com a graduação em medicina, que é mais intensiva em capital humano e equipamentos, um curso mais longo e, na medida em que eles foram se interiorizando para Santarém e Marabá, fomos ampliando também as residências médicas. Entretanto, foi extremamente desafiador fazer isso. Havíamos experimentado, num primeiro momento, colocar cursos de Enfermagem em Paragominas, Tucuruí, Santarém e Conceição do Araguaia e isso não deu muito certo porque não tínhamos “pernas” para aquela ocasião. Depois fomos amadurecendo. Isso trouxe desafios que a cada dia se ampliam. Significa ouvir e interagir com as questões e anseios locais e, ao fazer isso, ter produtos e serviços que sejam apropriados como transformadores daquela realidade. Se a Universidade não fizer isso, essa conquista não é muito importante.

Como o senhor enxerga as perspectivas de futuro para a instituição?

Com otimismo. O que, por si só, não resolve os problemas. Mas pessimismo atrapalha. A Uepa tem por obrigação ser otimista e acreditar naquilo que faz. Historicamente, sempre operamos na Amazônia com uma agenda que não nos favorecia. Menor densidade populacional e renda per capita, níveis de escolaridade, número de doutores baixos, etc. Precisamos transformar isso de forma positiva. No caso particular do Pará, temos uma série de mecanismos institucionais que estão se movimentando e se somam de forma sinérgica, sejam a Lei de Inovação; o Pará 2030; o Parque de Ciência e Tecnologia (PCT Guamá), a localização das sedes de instituições de desenvolvimento e o Fórum das Instituições de Ensino e Pesquisa do Pará. Precisamos dessa base, algumas leis, programas para enxergar o futuro, mas, sobretudo, da vontade substitutiva entre as organizações para fazer, com competência e inteligência, aquilo que o Estado, a região amazônica necessitam. Vejo a Universidade cada vez mais atenta às demandas da sociedade e mais entrelaçada com outros órgãos em parcerias para resolver problemas complexos.

Qual a programação para as comemorações dos 25 anos da Uepa neste ano?

Pensamos em reconhecer o papel dos profissionais que, desde 1944, fazem a educação estadual superior no Pará. Celebrar o Jubileu de Prata, mas sem se distanciar de todo o esforço feito no passado pelas faculdades isoladas. A Universidade traz no seu DNA essas características, então faremos uma comemoração que retrate um pouco isso, do ponto de vista interno. Estamos com outras ações científicas e de extensão para sinalizar que esses 25 anos têm sido feitos com a crença de que somos capazes e estamos construindo um futuro melhor. O contribuinte aqui deixa o seu dinheiro, de forma indireta, para que possamos funcionar. Esse esforço vale à pena, já que não compete à esfera do Estado, o Ensino Superior e sim, à União. Então se temos isso, a sociedade precisa ver na Universidade a resposta para alguns anseios, não só na formação dos seus filhos e netos, mas na qualidade de vida que vai agregando ao estado, pela transformação dos egressos que temos a cada ano e pelos resultados acadêmicos. Precisamos também dar brilho aos olhos dos estudantes do Ensino Fundamental e Médio para que eles tenham na Uepa a possibilidade da materialização do seu sonho profissional. Buscamos fazer isso na Feira Vocacional, por exemplo. Contribuímos com 22% das vagas das instituições públicas de ensino. Estamos aqui há 25 anos, mas queremos que eles venham para trazer oxigênio e novas inquietações. A Universidade se renova por meio dos questionamentos que surgem a cada dia.

 

Texto: Dayane Baía

Fotos: Nailana Thiely